To the international readers, this is a Twitter thread I wrote in February 27, 2025, in Portuguese.
Existe um fenômeno na comunidade paleontólogica online não acadêmica: o Zé-Medida. Geralmente (mas não sempre) está começando a tentar se aprofundar na paleontologia. Dinossauros, claro, são o seu objeto de "pesquisa" principal: um clado popular, muito estudado e que ocupa uma ampla faixa de tamanho. É a presa ideal.
O Zé-Medida, por qualquer motivo que seja, se vê crente de que decorar o tamanho de vários dinossauros é sinônimo de inteligência. Além disso, ele também acredita que espécies de dinossauros têm um tamanho específico, exato, e que nós temos a capacidade de precisar isso com plena certeza (para os mais humildes, com algum grau de plausibilidade, mas esses indivíduos são raros). Receita para o desastre.
Assim, o Zé-Medida parte para a coleta de dados. A maioria bebe de fontes secundárias, como fóruns, Wikipédia e suas cópias e outros sites de divulgação. Outros absorvem “dados” de reconstruções esqueléticas dos seus artistas favoritos. Alguns poucos se aventuram na literatura acadêmica. Mas algo comum a todos eles é que a absorção das informações é feita de forma acrítica: se está lá (e é de seu agrado) é porque é verdade. Não buscam compreender como se faz, os diferentes métodos, suas limitações e como interpretar seus resultados.
Sobre massa corporal, a exceção é um método (GDI) que usa reconstruções 2D para estimar a massa, relativamente fácil de aplicar e, por isso, é muito difundido nas comunidades. Logo, o Zé-Medida “entende” que esse método é superior a outros e, se usado, revelará a verdade. Ele repudia especialmente métodos alométricos, pois assume que produzem resultados errados já que a maior parte da comunidade pensa assim.
A partir dessa coleta de informações, o Zé-Medida começa a montar um banco de dados pessoal, que se consiste no nome da espécie e o que assume ser suas dimensões (altura, comprimento e massa), sempre buscando ser o mais exato que pode. Alguns são especiais e inserem o nome dos espécimes, mas a filosofia continua sendo a mesma. Por exemplo: espécie A tem 3,5 metros de altura, 10,6 metros de comprimento e 5,8 toneladas. Alguns vão além e precisam mais ainda: 3,57 m; 10,61 m; 5,84 t. Muitos Zé-Medida até fazem listas: maiores terópodes, top 10 ornitísquios mais compridos, top 5 saurópodes mais altos. Observe que a busca pelo maior é sempre priorizada; quanto maior, melhor.
Com todo esse pseudoconhecimento, derivam-se várias coisas. O Zé-Medida pode tentar se estabelecer como uma espécie de autoridade no tamanho dos dinossauros, como um grande conhecedor de determinado grupo, como um pesquisador sério, como alguém paleontologicamente relevante. Várias coisas. A pior é que esse senso de autoridade lhe torna arrogante. Se alguém apresenta estimativas diferentes do que ele sistematizou, está errado; se alguém aproxima estimativas, está errado; se alguém não sabe, é burro. E se um cientista sério comete algum desses “erros”, ai dele! Pois o Zé-Medida correrá para corrigi-lo e saciar seu ego. Saber o tamanho de animais é biologicamente relevante, mas o Zé-Medida liga para isso? Para ele, o que é importa é quem é o maior.
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